Ainda não cantara o galo nem se pusera a estrela da alva, quando Basílio acordou e se levantou cedo naquele dia. Já tudo fazia com dificuldade, a lepra alastrara-se pela pele, as feridas nas pernas e nos braços, à força de tanto coçar, semelhavam flores vermelhas a gotejar sangue. Com aperto vestiu a serapilheira que da cabeça aos pés o enroupava como túnica, com maior dificuldade ainda, levou à boca a escudela partida onde conservara, seco e escuro, o resto de um caldo de vários dias.
            Basílio, porém, estava contente, era dia de feira. O dia em que os fidalgos e as fidalgas se condescendiam descer dos paços das suas casas de janelas e portas apaineladas e misturarem-se, seguidos por serviçais e aias, com o povo que vinha dos burgos ao redor da cidade. Muitos já o conheciam e se lhes pedisse uma esmolinha pelas almas, estava certo que receberia, na velha coifa que lhes estendia, umas míseras moedas que lhe viriam a matar uma fome de meses, e com sorte, talvez o talhante que ficava no canto do largo lhe desse uma nesga de pão e um naco de chouriço. Por isso Basílio estava contente, mas tão fraco, tão cansado, tão esquecido, que ele próprio se desconhecia, deu-lhe para lembrar a mulher. Haviam sido caseiros do Mosteiro até que ela morrera, muito nova muito branca, fora-se a sepultar numa velha igreja do arrabalde, deu-lhe para lembrar dos filhos, na realidade já nem se lembrava da cara de cada um: o mais velho morrera pequenino; o novo desaparecera em batalha real. E depois viera a doença, a falta de forças, a penúria dos haveres, a miséria…
            Basílio parou de recordar, tudo era confuso, era preciso deixar de pensar. Era dia de feira, o que importava era lá chegar, subindo por congostas íngremes e evitando a canzoada, também ela famélica, que infestavam as ruas. Basílio levantou-se, agarrou no cajado onde se apoiava há anos, benzeu-se defronte de uma ilustração imunda que lhe haviam dado e que representava o santo do seu nome – São Basílio – (que lhe haviam dito) fora homem de muito saber e muita virtude.
            …O vento já trazia os ecos da música, dos risos das crianças e pregões de artesãos e mercadores, a feira estava a raiar …

NOTA: este texto é uma adaptação de um artigo publicado no Diário de Coimbra pelo Sr. João Tomaz Miguel Pereira – ex-bibliotecário do Instituto Botânico da Universidade de Coimbra. O texto integral foi-me cedido pelo próprio Basílio. Para ler o texto original e na íntegra clique Aqui

          O dinheiro angariado pela personagem Bazilius nas feiras medievais é entregue pelo Joaquim Basílio a instituições de solidariedade das localidades aonde se fazem as feiras.

fotografia por Valeriano Bica Machado (2004-2009)

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